Introdução
As mulheres recebem subsídios governamentais para tirar a vida a pessoas
(aborto clinicamente assistido), mas os homens vão presos por matarem
pessoas. No que concerne a direitos de descendência, as mulheres têm
os direitos todos. Os homens e as crianças não nascidas não têm nenhum.
Se, como elas dizem, as feministas acreditam na igualdade, então devem
concordar que na medida do possível dado a complexidade do assunto e
as idades das partes envolvidas, o poder deve ser repartido pelas três
partes envolvidas.
Este capítulo tem três secções: Decisão para os homens, decisão para
os homens no aborto, e aborto. A opção para os homens começa
onde o feminismo permite, assumindo que o feminismo ganhou a guerra
do aborto. As secções do aborto discutem o lugar deste já gasto tópico
no contexto da guerra de sexos em geral. Se pensa que já que já sabe
tudo o que quer saber sobre o aborto, então pode ser melhor omitir simplesmente
a leitura das duas últimas secções deste capítulo. Mas a próxima secção
pode ter algumas surpresas para si.
Decisão para os homens
De acordo com a posição do Artigo sobre a Posição dos Homens na Escolha
da Descendência:
Uma em
cinco crianças norte americanas nascem fora do casamento. Enquanto 1,6
milhões de mulheres norte americanas todos os anos abortam e declinam
à paternidade, meio milhão de homens tem o seu “poder paternal regulado”
nos tribunais norte americanos e dados preliminares indicam que cerca
de 33% dos nascimentos podem ser indesejados pelos homens seus pais.
Os homens têm sido tratados como uma subclasse sem direitos sobre a
descendência. ... Negar os direitos sobre a descendência aos homens
é humilhante, opressivo, ofensivo aos princípios básicos da dignidade
humana ... (www.rahul.net/c4m/c4m.html).
Aos homens deve ser dada a possibilidade de determinar os seus direitos
paternais e responsabilidades paternais essencialmente nas mesmas condições
em que é permitido às mulheres terminarem as suas gravidezes, nos países
em que são residentes. Uma paternidade não planeada pode causar graves
transtornos na vida de um homem. Transtorna a sua educação e a sua saúde
mental, de facto afecta toda a vida familiar. Pode provocar desde transtornos
psicológicos até ataques cardíacos. Pode provocar sofrimento físico
e mental. Uma criança não desejada pode também sofrer de angústia. E
o homem envolvido pode ficar com um estigma social por ser um pai não
casado.
Ao contrário do que defendem as feministas, a possibilidade de decisão
para os homens é absolutamente nula. Elas defendem apenas que a decisão
de um homem em particular terminar os seus direitos e responsabilidades
paternais é uma decisão desse homem, do mesmo modo que uma mulher decide
se quer ou não abortar. Esta posição não está insenta de problemas éticos.
Que sentirá uma criança quando cresce e descobre que o seu próprio pai
não o desejou e o rejeitou? No caso de aborto, pelo menos a criança
é morta e nunca sabe que foi rejeitada e morta. Por outro lado, pelo
menos a criança cujo pai exerceu a sua opção continua viva!
Decisão para homem no aborto
A facção pró-opção favorece a decisão desde que se aplique apenas à mulher.
Quando pensam nos homens, elas usam os mesmos argumentos da facção pró-vida.
Isto demonstra a sua hipocrisia.
Elas dizem que as mulheres devem poder decidir o que fazer com a sua
própria fertilidade, mas os homens não têm direitos a não ser o de pagar
a decisões tomadas pelas mulheres. Se uma mulher assinar um impresso
de aborto, ela está a roubar um filho ao seu pai, cuja existência ele
até pode desconhecer. Se a mulher não assinar o impresso de aborto,
então o homem é obrigado a sustentar um filho que não desejou e cuja
concepção desconheceu porque pensou que a mulher estava protegida por
anticoncepção.
Tal é o domínio que, nos países ocidentais, a mulher tem sobre os homens
e sobre as crianças, mesmo as não nascidas. O lema feminista “o seu
corpo, a sua opção” é de tal forma aceite que qualquer coisa dentro
da mulher é dela e com o qual pode fazer o que lhe apetecer. A insistência
feminista neste aspecto é tão extrema que se opõem à punição de mulheres
que usem drogas ou álcool. Isto ignora o facto de que o feto só está
dentro dela porque um homem a ajudou a pô-la lá dentro. O homem também
tem direitos sobre o feto. Sobretudo, porque não há até ao momento alternativa
para um homem que pretenda ter um filho de forma natural que não seja
persuadir uma mulher a dá-lo a luz por si.
O pai pode ter fortes razões para querer ou não que a criança nasça,
e deve poder ser tido em conta. Sobretudo porque uma vez que a criança
nasça o pai pode bem ser obrigado a criá-lo, ou ao pagamento de uma
pensão de alimentos à mãe em caso de separação ou divórcio, ou legar-lhe
parte dos seus bens como herança quando morre, etc.. De forma simples,
é injusto que a mãe tenha direitos unilaterais de decidir como impor
este deveres e responsabilidades ao pai. Parafraseando Thomas (Not
Guilty: In Defence of the Modern Man, London, Weidenfeld and Nicholson,
1993), você deverá permitir a uma pessoa que gaste o seu dinheiro para
comprar um carro de luxo da opção dela, e deixá-la levá-lo para seu
uso exclusivo?
Há um paralelo com a lei romana da família. Na Roma antiga, o pai era
o chefe da casa, e tinha poder sobre a vida e sobre a morte dos seus
escravos, e de outros dependentes, tais como, os seus filhos e a sua
esposa. Hoje em dia, este sistema é unanimemente visto como uma ofensa
à moral. Mas o paralelo com o poder absoluto de uma mãe sobre a vida
e sobre a morte de uma criança não nascida nas sociedades modernas é
absolutamente admirável. O tempora! O mores! (Que tempos! Que
costumes!)
Aborto
Há pelo menos dois tipos de mortes que as sociedades modernas permitem
– a guerra e o aborto. A guerra é quando as pessoas (principalmente
homens) arriscam a sua vida para matar outras pessoas (principalmente
homens) para o benefício da sua comunidade. Aborto é quando as mulheres
arriscam muito pouco para matar uma pessoa indefesa para o seu próprio
benefício. Isto ilustra claramente como as sociedades modernas ocidentais
giram à volta das necessidades das mulheres, chegando ao ponto de descriminalizar
o assassínio.
Um livro de texto de introdução à criminologia de Haskell e Yablonsky
(1974) contém uma secção apenas sobre a descriminalização do aborto
que mostra claramente o domínio do feminismo sobre o poder intelectual
nos países ocidentais. Eles escreveram o texto pouco depois da decisão
sobre o aborto do Supremo Tribunal dos Estados Unidos em 1973. Este
estabeleceu que as mulheres tinham direito ao aborto nas primeiras seis
semanas de gravidez, e que nos primeiros três meses de gravidez a decisão
dependia apenas da mulher e do seu médico.
Mesmo antes disto, no entanto, apenas quinze dos cinquenta estados dos
EUA punia uma mulher que procurasse um médico para matar o “seu” feto.
Geralmente, apenas o médico levava a pancada. Comparemos isto com o
cenário de um assassínio por contrato, em que a maioria dos países e
estados condenam quer o contratante quer o contratado pelo crime. Como
as coisas mudaram:
Razões médicas, violação e incesto são responsáveis por relativamente
poucos abortos. As mulheres procuram abortar porque estão relutantes
na interrupção dos seus planos de carreira, porque têm falta de dinheiro,
porque temem perder a liberdade individual, ou porque têm dúvidas sobre
a sua relação com o homem com que estão envolvidas (Haskell e Yablonsky
1974, p. 366).
Como resultado de uma decisão do supremo tribunal, as pessoas
pobres sem possibilidades económicas para o aborto podem satisfazer
a sua necessidade legalmente, sem despesas, e com a assistência de um
profissional de medicina. A criminalidade será reduzida a uma questão
de satisfação de necessidades. Aqui temos nós um exemplo do que acontece
a num crime sem vítima (itálico da minha autoria) quando a lei
que regula a moralidade é abolida. A verdadeira vítima das leis do aborto
é a pobre mulher que comete um aborto ilegal. A lei que é suposta protegê-la
faz dela uma vítima (ibid, p. 366)
Considerando que isto é de um livro de texto para estudantes de direito,
os autores são nitidamente tendenciosos. Como é que alguém pode considerar
um acontecimento de “sem vítima”, quando mata alguém que, dentro de
poucos anos, pode ele próprio vir a ler este livro de texto sem compreender
como lhe poderia ter sido aplicado! Imagine a descriminalização de um
assassino profissional, e a sua disponibilização para trabalhar para
“pessoas pobres, sem custos e de forma profissional”. Terão os autores
pensado como isto reduziria a criminalidade e quantas necessidades ficariam
satisfeitas?
De facto os autores estão perfeitamente conscientes de que o aborto
não é um crime sem vítima. No próximo passo eles falam sobre quem é
a “verdadeira vítima” do aborto. Lendo nas entrelinhas, parece claro
que eles não têm coragem suficiente para declararem que uma criança
não nascida é a vítima do aborto, mas aludem a indirectamente a ela
referindo-se à “verdadeira” vítima.
Ironicamente, a única vez que as feministas se opõem ao aborto e ao
infanticídio é quando ocorrem em países do Terceiro Mundo e as vítimas
são principalmente femininas, como na Índia ou na China! Elas censuram
o aborto provocado pelos ultrassons das ecografias ao útero materno
nestes países, porque os crianças mortas antes do nascimento, nestas
circunstâncias são essencialmente bebés femininas. Na China, tradicionalmente
as pessoas mais velhas vivem com o seu filho mais velho. Na China há
uma política de controlo de nascimentos que impõe um filho por casal,
que é rigidamente fiscalizada nas cidades. Os pais sentem que não têm
quem cuide deles quando forem idosos se o seu único filho for do sexo
feminino. Deste modo, com muita frequência, ou os fetos femininos detectados
pela ecografia são abortados ou, se a gravidez chegar ao fim, o infanticídio
é muito provável. As feministas abominam esta situação e, sob insígnia
da “eugenia”, evocando memórias do programa Nazi, unem-se contra ela.
Mas apenas onde as vítimas são principalmente femininas, dando evidência
clara de como são sexistas.
Hipocrisia feminista aparte, é possível entender a justificação de libertação
que trata o aborto como um despejo (Rothbard, 1981, www.backlash.com/book/abort.html). Na ausência
de uma alternativa razoável ao aborto, a libertação, implica a morte.
No entanto, logo que se tenha inventado um útero artificial, perfeito
e comercialmente disponível, o despejo do útero deixa de implicar a
morte da criança. Nesta altura, o lema “meu corpo, minha opção” deixa
de implicar assassínio, e será possível para o pai dizer à mãe, “Aborta
a tua participação na gravidez se quiseres, mas se optares por um método
que mate o feto quando tens outra alternativa, estás a violar os meus
direitos e a cometer assassínio” (Van Mechelen, 1991, www.backlash.com/book/abort.html).
No entanto, não temos um útero artificial à venda e temos que lidar
com questões morais na situação actual. Mesmo que existisse a opção
de transferir um bebé do útero materno para um útero artificial, continuaria
a haver problemas. Um deles, tal como no caso da decisão para os homens,
seria que teríamos crianças que cresceriam a saber que tinham sido rejeitados
por pelo menos um dos pais.
A linha de pensamento feminista é que o aborto não é um assassínio porque
as pessoas que mata não são pessoas. Esta desumanização (ou objectivação?)
das crianças está mais desenvolvido no caso das crianças não nascidas,
mas os tribunais ocidentais tendem a actuar indulgentemente em favor
das mulheres que cometem infanticídio, uma vez que podemos testemunhar
a extensão gradual do “aborto” a crianças já nascidas. Será “aborto
pós-parto”?
Não só os fundamentalistas religiosos que vêm problemas sérios com as
intenções feministas do aborto, embora por vezes pareça que apenas o
direito religioso deseje activamente opor-se ao aborto. Algumas libertárias,
tais como Doris Gordon opõem-se completamente ao aborto (www.concentric.net/~bwjass/lfl/ac&lp.htm).
Pessoalmente, a minha objecção assenta no meu princípio de repugnância
ao assassínio, sem qualquer doutrina religiosa em particular.
Fragilidade feminina?
Na Nova Zelândia em 1988, de acordo com o Relatório do Comité de Supervisão
do aborto, 14965 (isto é, 98,4%) dos 15208 abortos feitos nesse ano
foram autorizados para evitar “danos graves à saúde mental” da mãe.
Quem estão eles a tentar enganar? Alguém acredita seriamente que todas
estas mulheres, na pequena população neozelandesa de 3,6 milhões de
pessoas, sofreriam graves problemas mentais se não abortassem? Num artigo
do jornal da NZMERA (organização neozelandesa de direitos dos homens,
http://zohmembers.tripod.com/peterzohrab/299enslt.html),
Paul Clarke sugeriu que o governo neozelandês deveria fazer um inquérito
à saúde mental das mulheres grávidas para clarificar este assunto!
Serão as mulheres neozelandesas assim tão frágeis? Ou serão as feministas
que comandam o sistema que, abusando da lei, a interpretam como sendo
uma licença para abortar à descrição? É um facto nos países ocidentais
que feministas (masculinos e femininos) predominam nas agências que
implementam legislação médica e social, e frequentemente abusam do seu
poder e interpretam a lei do modo que mais lhe convém. Devem interpretar
a palavra “sério” muito desregradamente. Casos de violação e saúde física
da mãe ou do feto não fazem parte significativa das estatísticas de
aborto nos países ocidentais. A maioria dos abortos são feitos como
técnica pós-coital de controlo de nascimentos. Qual a medida da seriedade
deste problema? Tão sério quanto o problema da necessidade de sexo de
uma mulher? Tão sério quanto a necessidade de sexo de um homem?
Isto levanta a discussão da pílula do dia seguinte (RU486), que produz
uma espécie de aborto. Quem for contra o aborto deverá ser também contra
o uso desta pílula. De acordo com um artigo do Boston Globe publicado
no portal de Internet do RU486 (www.ru486.org/ru9.htm),
as feministas estão divididas quanto ao uso desta pílula. Algumas acusaram-na
como um “medicamento perigoso e incómodo que não deve ser permitido
como substituínte dos convencionais abortos cirúrgicos nos Estados Unidos
ou em qualquer outro lugar”. Isto realça o facto de que o aborto é de
facto olhado pelas feministas como medida contraceptiva, e não como
meio de preservar a saúde mental!
O aborto é um assunto muito emocional, com fortes argumentos pró e contra.
À primeira vista parece um assunto sem qualquer relação com a discussão
geral entre feminismo e masculinismo. De facto, no entanto, estão profundamente
envolvidas questões de direitos de homens e de mulheres, assim como
direitos de crianças antes de nascerem.
No fundo, será que, algumas feministas se sentem muito culpadas com
o assunto do aborto? Certamente que muitas das mulheres que tiveram
elas próprias abortos, sim. Será por isto que as feministas tentam arduamente
fazer sentir culpados todos os homens de abuso sexual, violação e violência
doméstica? Para desviar as atenções da sua própria culpa e vergonha?
Qualquer pessoa poderá talvez escrever um ensaio de história psíquica
do feminismo, e ver o aborto neste contexto.
Vamos examinar alguns dos argumentos envolvidos. Limitarei-me a um argumento
pró-aborcionista, porque está entre um dos seus mais frequentemente
invocados. Thomson (1980) é uma forte atacante da causa anti-aborcionista.
No entanto, o seu argumento depende de algumas assunções dúbias. Ela
analisa os argumentos anti-aborcionistas em dois componentes:
1. A
noção de que o feto deve ser uma “pessoa” a partir do momento da concepção,
visto que, de outro modo, é impossível estabelecer uma linha que separe
a sua prévia existência como “não-pessoa” da sua posterior existência
como “pessoa”. Este argumento é uma tentativa de refutar a noção de
que a vida de uma pessoa começa no nascimento.
2. A
noção de que o direito do feto à vida é maior que o direito da mãe de
controlar o que está dentro do seu corpo. O ponto aqui é que, na maioria
dos casos, a existência actual da mãe não está ameaçada por nada de
que o feto possa estar, não sendo o inverso verdadeiro.
Thomson
discorda com ambas as noções. Compara a primeira, com a frieza e desprezo,
com o argumento de que nunca se pode dizer quando é que uma bolota deixa
de ser uma bolota e passa a ser um sobreiro. O seu argumento é que bolotas
e sobreiros não são a mesma coisa, e assim deverá haver um espécie de
linha divisória embora seja difícil dizer exactamente onde está.
Esta é, no entanto, uma falsa analogia. Um feto é diferenciado de um
menino ou de um bebé, sendo a linha divisória pura e simplesmente o
momento do nascimento. Isto, mais que uma condição biológica, é uma
construção social que estabelece o momento em que, tradicionalmente,
a sociedade humana recebe o seu primeiro vislumbre de pessoa. Actualmente
com as ecografias tendem a esbater esta fronteira.
Uma bolota parece e é muito diferente de um sobreiro, mas um feto não
parece muito diferente de um recém nascido e partilha muitas características.
De facto, pouco da natureza física de um feto difere da de um recém
nascido. As bolotas são certamente diferentes de sobreiros, mas entre
fetos e pessoas não há, em termos tradicionais de linguagem, o mesmo
contraste de conceitos.
Há quem sugira que podemos dizer que uma bolota deixa de ser uma bolota
quando germina, do mesmo modo que um óvulo deixa de ser um óvulo, e
começa a ser um feto, logo que as células começam a diferenciar-se,
cabeça e pescoço, nariz e dedos, um coração a bater e mãos a agarrar.
Isto levar-nos-ia ao problema de estabelecer uma linha entre o espermatozóide
e o óvulo, e de tecidos, como por exemplo, um pedaço de unha que podem
ser usados para clonar seres humanos, por um lado, e um feto, por outro.
Não estabeleço uma fronteira entre um óvulo e um feto, embora algumas
pessoas possam pensar que isto é uma possível posição a tomar.
Thomson não invoca este argumento porque acredita que é difícil estabelecer
o momento em que um feto se torna numa pessoa. Do meu ponto de vista
um pedaço de unha, um espermatozóide ou um óvulo não evoluem espontaneamente
num ser humano, não sendo por isso um ser humano. É claro, que mesmo
um óvulo fertilizado precisam de um útero para se desenvolver e se tornar
num ser humano, mas um pedaço de unha, um espermatozóide ou um óvulo
precisam de mais do que isso! Além disso, é difícil estabelecer exactamente
quando é que uma bolota começa a germinar ou um óvulo desenvolve órgãos,
porque isto são processos graduais que não evoluem de forma a poderem
dar-nos uma linha nítida com o propósito de podermos definir “assassínio”.
Deste modo no que Thomsom se concentrou foi no segundo argumento, isto
é, a relação entre os direitos da mãe e os direitos do feto. Ingenuamente,
ela imagina um cenário de alguém a acordar ligado costas com costas
na cama com um violinista famoso e inconsciente. Este violinista precisa
que os rins desta pessoa façam o trabalho que os seus não conseguem
fazer, assim o seu sistema circulatório tem estado, contra o seu desejo,
ligado ao da outra pessoa durante um período de tempo que poderia ser
de nove meses (ou eternamente). Não havia mais ninguém cujo grupo sanguíneo
permitisse esta função. Deste modo o dador foi raptado e tornado inconsciente
enquanto os médicos ligavam os seus dois corpos.
“O seu direito à vida é mais forte que o teu direito a controlar o teu
corpo”, disse o médico ao dador. Thomson assume que a maioria dos leitores
concordarão que isto seria inaceitável. Se isto é inaceitável, argumenta
ela, pode considerar-se aceitável e correcto terminar uma gravidez que
seja consequência de uma violação (um cenário de involuntariedade semelhante
ao do violinista).
As pessoas têm direito à vida apenas se não foram concebidas numa violação.
Ou ... todas as pessoas têm direito à vida, mas ... algumas têm menos
direito à vida que outras, em particular, ... aquelas que devem a sua
existência a uma violação têm menos.
Há uma falha lógica no seu argumento: abortar um feto que resulte de
uma violação parece mais aceitável (para muita gente) que os outros
casos de aborto não porque uns fetos tenham mais direito à vida do que
outros, mas porque o direito da mãe controlar o seu próprio corpo foi
violado e foi-lhe imposta uma responsabilidade de tal modo grande que
ultrapassa (na ideia de algumas pessoas) o direito do feto à vida. Claro
que os homens não ficam grávidos, e esta não é uma opção com a qual
os homens se vejam confrontados. No entanto, o facto de que sejam apenas
as mulheres a ter que fazer a sua opção não é um argumento que permita
às mulheres actuarem imoralmente! Os homens (em particular em tempo
de guerra e cenários potenciais de violação) estão frequentemente em
situações que as mulheres nunca experimentaram, e ninguém diz que este
facto desculpa actuações imorais, tais como crimes de guerra.
Aqui Thomson discute casos em que a vida da mãe poderá terminar (na
opinião dos médicos) se ela levar a gravidez até ao fim, incluindo casos
em que a gravidez resulta de violação. Pôr-me-ei do lado do ponto de
vista da “sociedade” em atenção a estes casos. Thomson, por seu lado,
põe-se a si própria na pele das mulheres, e vê o aborto como um acto
perfeitamente justificado de autodefesa. Colocando-o no contexto certo,
isto pode ser visto como uma atitude de auto-condescendência que é.
A autodefesa é correcta, do ponto de vista individual, mas a sociedade,
em certas circunstâncias, usa-lo passando sobre o direito dos outros
à auto-defesa. Por exemplo, os homens (nunca as mulheres) estão sujeitos
a recrutamento para a guerra de acordo com os caprichos dos políticos.
Se os homens estão sujeitos a recrutamento no interesse público, porque
não obrigar as mulheres a “recrutamento para concepção”? Sendo eu recrutado
em tempo de guerra e mandado para participar num ataque no qual eu sinto
que é provável a minha morte, não posso matar os meus superiores hierárquicos
com o argumento de autodefesa e esperar que o tribunal militar considere
que o meu objectivo de autodefesa seja justificação suficiente!
Ou imagine-se um homem saudável que tenha o azar de casar com uma mulher
que constantemente lhe cozinhe alimentos de alto teor em colesterol
e o sujeite ao estresse por chatear, bisbilhotar, etc.. Será que o tribunal
permite a este homem matar a sua esposa como acto de autodefesa? Não
me parece.
Aborto para os homens
Uma variante recente do tema da decisão
para os homens é a noção de “aborto para os homens”, publicado no portal
da internet www.rickemerson.com/male_abortion.html:
O aborto
masculino ... é simplesmente uma forma de libertação, que pode ser assinada
por ambas as partes em qualquer altura antes do acto sexual ... seja
nos momentos antes, ou seja meses antes. O aborto masculino estipula
que o homem deseja continuar sem crianças, e se resultar gravidez da
relação sexual com a signatária, ele fica livre de todos os compromissos
e responsabilidades, sendo a responsabilidade de ser mãe, dela e apenas
dela.
Concordarão
as feministas com isto?
Conclusão
A lei criminal deverá repor a moralidade.
O aborto é uma área em que o poder de uma das partes (as mulheres) tem
crescido ao ponto de a lei estar incapacitada de regular a sua moralidade.
Era suposto as leis antiaborto protegerem as crianças antes do nascimento
das mulheres e dos médicos. Com o crescimento do movimento dos direitos
dos animais, podemos já estar, ou estar prestes a chegar, a um ponto
em que espécies em vias de extinção ou os animais de laboratório tenham
mais direitos que os seres humanos antes do nascimento! É tempo de dizer,
“Vamos proteger os direitos dos homens e dos seres humanos não nascidos
primeiro, e preocupemo-nos depois com os direitos dos animais!”